quinta-feira, 28 de janeiro de 2021


II Fórum Liberdade e Pensamento Crítico




 texto de apoio da Associação abril ao Fórum e conclusões

 Associação abril

 

(…) É preciso criar nos homens e nas mulheres a convicção de que o único valor que realmente possuem em si próprios é a sua liberdade. (…) a liberdade de consciência como fundamento da democracia supõe, numa sociedade como a nossa, a educação para a liberdade.(…) a educação para a liberdade é fundamental para que a democracia assente não em palavras vagas mas em cidadãos capazes de serem os sujeitos morais da sua própria história.

Maria de Lourdes Pintasilgo

 

A abril – Associação regional para a democracia e o desenvolvimento – foi criada em Maio de 1986. Os seus Estatutos apontam como objeto de sua atividade a promoção do desenvolvimento social e da cidadania. É uma agremiação de cariz político-cultural e defende o exercício da democracia participativa a par da representativa, no caminho para a democratização plena da sociedade.

Entre as suas atividades contam-se predominantemente o debate esclarecedor e de intervenção em matérias relevantes no contexto de cada momento, tanto em áreas políticas e económicas, como sociais e culturais, tendo sempre como pano de fundo o exercício da liberdade. Persegue por isso, em todas as suas iniciativas, a promoção de um desenvolvimento social solidário, bem como a defesa do meio ambiente e dos valores culturais e patrimoniais que emanam da comunidade.

Uma das principais preocupações da Associação ABRIL é a de debater e partilhar os valores que defende com os mais jovens, no âmbito do seu compromisso com a promoção e desenvolvimento do pensamento crítico.

Neste contexto, se enquadra a sua participação e colaboração no Fórum Liberdade e Pensamento crítico, tanto na sua 1ª edição, como na 2ª, que ocorrerá no dia 9 de Novembro.

A Associação Abril tem como patrona Maria de Lourdes Pintasilgo (MLP), a primeira mulher que em Portugal exerceu o cargo de Primeiro Ministro e também a primeira mulher a candidatar-se à Presidência da República. Maria de Lourdes Pintasilgo no seu programa político defendeu como ninguém o exercício da democracia participativa, exortando os cidadãos para o gesto ativo e para o compromisso, tendo como base os pilares que definem os Fóruns: a liberdade e o pensamento crítico.

A Associação Abril, por sua vez, tem desenvolvido as suas actividades dentro desta concepção programática, com as devidas adaptações, fazendo uma espécie de radiografia do tempo e da sociedade que nos rodeia, no sentido de levantar questões que possam ser levados a debate, o mais possível esclarecedor, de modo a facilitar e induzir à ação.

No livro que MLP coordenou para as Nações Unidas, sob o título Cuidar o Futuro, de 1998, reúne, sem peias e de uma forma directa, medidas radicais para responder aos desafios que se colocam a todas as nações ricas e pobres, em relação às crises humanas, económicas e ecológicas que atravessam o mundo. Estas medidas poderiam muito bem ser objecto de reflexão de um próximo Fórum, de tal modo se identificam com as premissas e objectivos que levaram à organização do Fórum Liberdade e Pensamento Crítico, como por exemplo:

·        Fazer da Qualidade de Vida de todos os seres humanos o objectivo último da ação social e política, nacional e internacional;

·        Tomar a realização dos Direitos Humanos universais como metas precisas da Qualidade de Vida de todas as sociedades e estabelecer calendários para satisfação dos direitos à educação, à saúde, ao trabalho, ao descanso, a um ambiente e a uma ecologia que garanta a sobrevivência humana hoje e no futuro;

·        Promover os direitos específicos das mulheres enquanto direitos humanos fundamentais e garantir, assim, a base indispensável à estabilização da população mundial;

·        Rejeitar o domínio de um mercado cego que toma os seres humanos como descartáveis e contribuir para as parcerias indispensáveis a um novo contrato social;

·        Mobilizar os recursos financeiros necessários a nível mundial, através de uma taxa sobre as transacções internacionais de capital, de modo a garantir eficazmente a Qualidade de Vida para toda a população do planeta.

 

A participação da associação abril no Fórum foi a vontade de tentar construir algo de valor, em conjunto com outras organizações. Para nós, trabalhar em conjunto, em rede, é desde logo um exercício de pensamento crítico a que nos sujeitamos perante os outros e, simultaneamente, nos obrigamos, muitas vezes com dificuldade, a mergulhar no mundo dos outros e a aceitar as suas perspectivas, dentro do conceito maior de liberdade.

Então, o nosso objectivo primordial é tentar semear horizontes para a construção de um futuro digno para todos. Só reflectindo sobre o presente se pode construir o futuro. E para construir o futuro é preciso, antes de mais, cuidá-lo. E cuidar com ternura, como ensinou MLP. São a ternura e o cuidado que criam um universo de excelências, de significações existenciais, daquilo que vale e ganha importância, em função do qual se pode sacrificar o tempo, o empenho, e, às vezes, até a vida. Até Che Guevara assumiu este contrato de vida com a ternura, dizendo que ”é preciso enrijecer, sem nunca perder a ternura”.

A raiz da nossa crise cultural, económica e social é uma aterradora falta de cuidado e ternura de uns para com os outros, de todos para com a Natureza e portanto para com o nosso próprio futuro.

Deve-se entender e dar importância à ligação entre ideias e ação, na certeza de que não deveria haver cortes entre economia e política, entre meios e fins, entre eficiência e equidade, entre métodos e valores, procurando associar a tudo isto o rigor, a democracia, nomeadamente a democracia participativa. É necessário pugnar por ir ao encontro de uma maior participação da opinião pública, de ouvir a voz dos cidadãos, de despertar consciências, educar para a cidadania, desenvolver o pensamento crítico, para que as pessoas se dêem conta de que ninguém pode pensar por elas, de que elas têm que ser donos das suas ideias, do seu destino, da sua própria história.

“Navegar é preciso…”

É preciso reclamar o desassossego, o bulir com ideias feitas, prosseguir na necessidade de agir, mesmo com a palavra, mudar a vida, mudando de vida. É preciso indignar-se com a injustiça, defender uma ética de futuro, de ter o pensamento nas vítimas da História, organizar a intervenção cívica, na senda da democracia cultural. É preciso reagir contra a perversão do liberalismo e neoliberalismo que vão matando a humanidade existente nos seres humanos. É preciso almejar um pacto de futuro e esperança entre os povos, entre as religiões, preservar a memória. É preciso ouvir e respeitar a Terra, a “Pacha Mama”, tão ameaçada pela ganância e pela ignorância. É preciso colocar a mulher no lugar digno e ativo dentro da sociedade, pois ser mulher é ter um papel ativo na construção de um mundo novo, é “alargar as fronteiras do possível”.

“É preciso lembrar que todas as conquistas conseguidas ao longo do séc. XX são fruto, não de uma benesse da "economia de mercado", mas das lutas dos povos que a economia de mercado utilizou apenas como mão-de-obra necessária à criação de mais-valia, essa sim, não partilhada nem democratizada”(1). É preciso considerar que o mundo é a casa de todos nós e que ninguém tem o direito de colocar muros, arame farpado à volta de uma casa. É preciso indignação para que ninguém continue a morrer nas águas dos oceanos, nos caminhos da procura de uma vida de paz; ninguém pode morrer às mãos da “masculinidade  tóxica”; ninguém pode morrer com balas perdidas. É preciso reflectir sobre o papel não só da Utopia mas também da Distopia nas nossas vidas, nas culturas, na política, na organização dos países, no funcionamento do mundo. É preciso defender a Liberdade como vivência, como um momento de consciência. É preciso cruzar linguagens, pontos de vista, ideias, ideais, construir pontes, abrir caminhos entre a urgência da ação e a serenidade da reflexão. É preciso “arrancar alegria ao futuro”, almejando algumas utopias… Queremos que o futuro tenha um presente.

É preciso ousar, inovar, lutar, resistir pois “nunca ninguém levantou voo que não fosse contra o vento”.

É preciso ouvir o conselho de Leonard Boff:”ensina teus passos /o caminho dos sonhos/vives o tempo da coragem/a música do risco/ o tempo te desafia clamando.”

 

Baseamos esta reflexão em premissas que assentam na certeza de que a partilha de conhecimento, da informação e de experiências é um meio eficaz para o enriquecimento pessoal e social das comunidades e dos povos. Para nosso enriquecimento também. Para além disso, a sua promoção e valorização contribuem para a multiplicação e difusão dos valores fundadores da nossa cultura, baseada na liberdade, equidade e fraternidade. Vamos, pois, agora e sempre defender o pensamento na ação, o pensamento crítico. A liberdade.

Maria Guadalupe Magalhães Portelinha

( Presidente da Associação abril) 

(1) + Mário Moutinho, numa sessão promovida pela abril denominada “Violência com todos os nomes: a Pobreza”, na SPA.

 II Fórum Liberdade e Pensamento Crítico

Conclusões  do debate sobre o tema OBSCURANTISMOS na sala Carolina Beatriz Ângelo





Síntese biográfica dos convidados:

Isabel A. Magalhães- professora universitária, doutorada em Filologia Germânica; estudos teológicos na Universidade de Salamanca; leitora na Universidade Nacional Autónoma do México; presidente da Juventude universitária católica e do Graal; autora de várias obras, entre elas “Tempo das mulheres”, “Antologia da Literatura Portuguesa” e “Para lá das Religiões”.

Jorge Saraiva- Professor de Filosofia na Escola Secundária de Camões. Actualmente lecciona uma disciplina de opção do 12º ano, Ciência Política, em protesto contra os exames de Filosofia, desde que adoptaram o sistema de escolha múltipla…Muito ligado ao cinema, organiza todas as segundas feiras, na escola, um filme aberto a toda a Comunidade; tem a Direcção do ABC Cineclube.

Vítor Lima- Licenciado em Economia pelo ISEG; preso político antes do 25 de Abril; tem um blogue muito activo, denominado Grazia Tanta, com artigos fundamentados com estatísticas e números sobre diversos temas ligados à política, economia e finanças, etc.

Aos que virão depois de nós
I

Eu vivo em tempos sombrios
Uma linguagem sem malícia é sinal de
estupidez,
uma testa sem rugas é sinal de indiferença.
Aquele que ainda ri é porque ainda não
recebeu a terrível notícia.

Que tempos são esses, quando
falar sobre flores é quase um crime.
Pois significa silenciar sobre tanta injustiça?
Aquele que cruza tranqüilamente a rua
já está então inacessível aos amigos
que se encontram necessitados?

É verdade: eu ainda ganho o bastante para viver.
Mas acreditem: é por acaso. Nado do que eu faço
Dá-me o direito de comer quando eu tenho fome.
Por acaso estou sendo poupado.
(Se a minha sorte me deixa estou perdido!)

Dizem-me: come e bebe!
Fica feliz por teres o que tens!
Mas como é que posso comer e beber,
se a comida que eu como, eu tiro de quem tem fome?
se o copo de água que eu bebo, faz falta a
quem tem sede?
Mas apesar disso, eu continuo comendo e bebendo.

(…)

A presença deste tema nos debates nasce de uma preocupação resultante do seu significado em contraste  com um mundo que se desejava e imaginava que caminhasse no sentido da justiça, da liberdade e da felicidade. Apesar dos muitos avanços em algumas questões e, em especial, em alguns lugares, a humanidade continua a ser profundamente assimétrica, com 1%  a deter toda riqueza do planeta , as guerras pelo controlo de recursos naturais, os fanatismos religiosos, a luta pelo poder.  No mundo e nas sociedades que o compõe, existem mundos variados, em estádios de bem-estar social muito diversos. O modelo de desenvolvimento das sociedades ocidentais, pela sua acção predadora, está a ser desmascarada quer pela exploração desenfreada dos recursos do planeta, quer pela exploração e desequilíbrio da vida dos seres que o habitam- particularmente dos povos originários- bem como da fauna e da flora.

A época em que vivemos já passou, pela viagem de circum-navegação, pelo Iluminismo, pela revolução industrial e revoluções tecnológicas, pelas viagens espaciais, a Inteligência artificial a manifestar-se no nosso dia a dia e a impor-se a passos largos, enfim, uma série de antídotos que poderiam combater os obscurantismos na nossa sociedade.

Mas não é assim.

O obscurantismo de hoje apresenta-se em diversas modalidades, desassombradamente, a manifestar-se no aspecto e espectro político, religioso, tecnológico, científico, na comunicação social, nas relações individuais. Tem-se multiplicado, reavivado e actualizado, provocando atitudes poderosas de restrição e manipulação do conhecimento, no sentido de formar elites que subjuguem uma maioria de dominados, onde grassa a ignorância, a superstição e o medo. Tudo contrário à liberdade e ao pensamento crítico.

Os introdutores, acima referidos, abordaram este tema, sob diversos pontos de vista, dando informações muito pertinentes e actuais. Remeto os leitores para os textos que precederam os debates onde se pode verificar, com mais pormenor, o que foi tratado. Aqui vou limitar- me a elencar alguns aspectos

talvez os  mais pertinentes:

Vivemos debaixo de ganâncias de vária ordem: política, financeira, económica, religiosa. Substituiu-se um horizonte de humanismo, pautado pela generosidade e solidariedade, pelo egoísmo e individualismo. A falta de transparência e claridade está no planeta inteiro.

Os meios de comunicação social servem a política, sem quaisquer reservas de isenção e amplificam a informação tóxica, falsa. Os factos reais ficam soterrados, como por exemplo, as questões ligadas às alterações climáticas, em que demonstram total desinteresse ou preocupação pelo desenvolvimento sustentado, e sem investigação e com preguiça aceitam o parecer de determinadas equipas técnicas que, por sua vez, dizem o que lhes mandam os governos.

Outro aspecto é o terrorismo em que os media demonstram um comportamento obscuro e obscurantista, colocando sempre a tónica nos países árabes, esquecendo por completo as causas, o papel dos colonizadores, do colonialismo humilhante e a depredação actual de recursos. O individuo comum tem muita dificuldade em aprofundar a verdade da informação que recebe.

O secretismo das seitas religiosas que cada vez mais detêm um poder político em  certos países, porque estão profundamente ligados ao poder financeiro. As perseguições religiosas, mesmo de religiões cuja base é a paz como a perseguição aos muçulmanos pelos budistas. De um dia para o outro os vários países descobrem-se com as suas religiões e começam a matar-se uns aos outros.

A nível da justiça, impera enorme falta de transparência acerca das nomeações, distribuição de processos.

As questões ligadas à natureza dos espaços urbanos, dificuldade de actuação dos cidadãos, de se fazerem ouvir sobre a gestão de bens comuns.

As questões ligadas aos refugiados e imigrantes. Os preconceitos que os levam a afastá-los e relegarem-nos para as periferias das cidades. E a mensagem que é passada de que toda a gente está a imigrar, parece que o mundo todo está a mexer e a provocar uma grande invasão, quando na realidade são apenas 4% da população mundial.

Reservas e mentiras sobre a qualidade dos alimentos, os interesses económicos subjacentes.

A nível político e económico há uma vontade deliberada de ocultar a verdade. Parece que se voltou á idade das trevas. A irracionalidade tomou conta da política, uma falta de vergonha, despudorada, valoriza-se o mundo das aparências. A classe dominante a sonegar o poder às classes dominadas, através de regimes autoritários. Este obscurantismo é alimento da plutocracia, da corrupção da classe política e financeira, do ultraliberalismo.

Há uma discrepância fantástica entre o progresso científico-tecnológico que nos devia levar a uma sociedade mais igualitária, mas tal não acontece.

As situações das pessoas mais jovens, que não têm mecanismos para se defenderem e distinguir o trigo do jóio, podem ser facilmente manipuladas. Se não formos capazes de criar um movimento global que combata a desinformação, vamos acabar com a democracia.

A vida difícil das pessoas e as promessas falaciosas levam á superstição e à exploração de sentimentos mais primitivos, mesquinhos e ao medo o que conduz a um obscurantismo primário.

Na verdade parece que somos tomados por um obscurantismo atroz que domina todas as vertentes da nossa vida, neste mundo que tem todos os mecanismos para que seja exactamente o contrário.

Deixamos, todavia, uma nota positiva: há algumas iniciativas para tentar melhorar a informação que recebemos, a cultura que nos transmitem, a educação que nos formata Há que acreditar na Humanidade e é fundamental agir, não deixar que nos transformem nuns robots. Antes dar lugar à intrepidez e á humanidade integradora, à solidariedade. Podemo-nos  interrogar como Brecht, e tentar que não se perca o sentido da vida e a necessidade de  mudança :”Ah, que tempo este que falar de árvores se torna um crime. De certo modo estamos a silenciar as injustiças”. Mas também dizer com Assis Pacheco: “eu dou cabo da escuridão do mundo”.

GMP

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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