sábado, 7 de julho de 2018

“Todo o pensamento começa por um poema”


FÓRUM LIBERDADE E PENSAMENTO CRITICO
14 de Julho-Liceu Camões

“Todo o pensamento começa por um poema”, ensinava Alain no seu diálogo com Valéry.
Neste tempo, sem tempo, de permanente corrida contra ele e não com ele, o tema da liberdade, por ser intemporal deve e tem que acompanhar a vida de cada pessoa, não se vá ela perder ou disfarçar, assumindo formas perversas e enganadoras. Por isso é também fundamental o conceito de pensamento crítico associado à Liberdade bem como à Equidade e Fraternidade, pilares maiores da nossa civilização. O conceito de pensamento crítico ainda hoje difícil de organizar e desenvolver nas sociedades humanas, traz- me à memória a figura de uma mulher que nasceu no ano 350, num tempo, como o de hoje, em muitos lugares do mundo, em que eram sonegados à mulher o direitos mais fundamentais, incluindo a sua capacidade de pensar. Falo de  Hepatia de Alexandria, que disse, na sua sabedoria de mulher sem direitos, mas inteligente, consciente e lutadora, “ reserva o teu direito de pensar. Mesmo pensando errado, é melhor pensar do que não pensar”. Esta mulher ao exortar ao exercício do pensamento e à prática da reflexão, aponta caminhos que levam ao questionamento, à interrogação, à procura de respostas para o desconhecido, à tomada de decisões e à respetiva responsabilização, à partilha do pensamento com os outros e também à desobediência…Hepatia tinha, contudo, consciência de que estas vias só se conseguem em pleno se houver liberdade, o que ela só conseguiu por breves períodos, em poder manifestar e expandir os seus talentos, acabando, no entanto, por ser assassinada, devido à sua ousadia. É essa tomada de consciência que tem levado milhares de seres humanos a lutar e morrer, ao longo dos tempos, para conquistar a liberdade e mantê-la bem próxima de si, pois a História demonstra que não é um bem adquirido para sempre. Em qualquer momento se pode perder por tempo indeterminado…
 Aliada ao pensamento e à reflexão, também a comunicação é essencial para realizar o ser humano enquanto pessoa e permitir a criação de vínculos de uns para com os outros. Por isso, num grupo ou numa comunidade, é fundamental, que se desenvolva desde cedo o hábito de pensar, refletir e comunicar o que leva a que se possa usar, da melhor forma, a demonstração e a argumentação para se defenderem e preservarem os princípios e valores que lhes são caros, como os que movem a realização deste Fórum. O apelo à análise, em várias vertentes, do tema Liberdade e pensamento crítico vai no sentido de que se se compreender e estimular a capacidade de reflexão e argumentação, dá-se um passo muito importante para que cada cidadão e cada cidadã se constitua membro ativo da sua comunidade e para que o conceito de cidadania alcance o seu verdadeiro significado e a sua expressão mais profunda.
Como pode então a poesia inserir-se nesta elaboração de pensamento, nesta reflexão, nesta procura, nesta luta, em suma, na defesa da liberdade?
Atahualpa Yupanki, de entre as muitas das suas canções, chamadas de protesto, cantou uma que começa assim:”yo tengo  tantos hermanos/que no los puedo contar/y una hermana muy hermosa/que se lhama libertad”.E esta luta pela defesa desta irmã mais formosa perpassou por toda a sua obra e a sua vida, levando esta mensagem aos quatro cantos do mundo. Como ele muitos outros também, ao longo dos tempos e em diversas línguas o fizeram, como o inesquecível Zeca Afonso. No entanto, não é apenas nos cantos que são armas que a palavra poética se pode manifestar refletindo o desejo ou a perda de Liberdade. Nos poemas mais líricos, as palavras tomam asas e revelam os mais profundos sentimentos ou emoções como enunciação de liberdade que pode ser não apenas física mas ir ao âmago mais profundo da humanidade de cada sujeito- aqui ouve-se, por exemplo, Florbela “Meu doido coração aonde vais,/No teu imenso anseio de liberdade?”- construindo o seu caminho na senda da verdade, reafirmando o que Heraclito defendia ao dizer que “a poesia e a verdade são sinónimos”, e eu atrevo-me a acrescentar mais um sinónimo à verdade, que é a liberdade.
Muitos poetas de todo o mundo elegeram a liberdade como mote de alguns dos seus escritos, quer pela falta dela, quer pela necessidade de a preservar, nomearam-na, como Paul Eluard, e também como muitos poetas nossos. A poesia lança as sementes à terra que é lavrada pela mão e alma dos poetas e, uma dessas sementes, é aquela irmã mais formosa que se chama liberdade. Ao longo do tempo homens e mulheres têm usado as palavras para além da sua função comunicativa transformando-as em poemas, canções, teatro, filosofia, permitindo à Liberdade um terreno fértil para florir.
George Steiner tem um livro a que deu o título “A poesia do pensamento”. Nada podia ser mais verdadeiro, nem mais significativo. Esta noção eleva a poesia aos mais altos patamares da cultura humana. Poesia e pensamento caminham lado a lado em todos os atos da vida, pelo que quando identificamos em Cervantes o retrato do herói que é o género humano, representado por D.Quixote e Sancho Pança, vê-se a humanidade na sua busca incessante, do sonho, da liberdade e da Utopia. Sartre afirma que a filosofia se exprime através de uma linguagem literária. Há como que uma conjugação individual do filosófico e do poético, numa parábola de espelhos. Renée Char punha a poesia acima da Filosofia, o que é reforçado por Althusser que afirma que o pensamento filosófico só pode realizar-se metaforicamente, ou seja, pela poesia. Uma ideia explica-se. Uma emoção manifesta-se numa palavra expressiva, numa imagem pois “há poesia em tudo”, como dizia Pessoa. A poesia é assombro, admiração, liberdade, que se faz com as mãos como escreveu Alegre e cantou Adriano. Coleridge afirma que “a prosa é as palavras dispostas na melhor ordem, enquanto a poesia é as melhores palavras dispostas na melhor ordem”. Daqui partir para a ligação da poesia à música parece obvio, ou seja , a poesia aproxima-se extremamente da fusão do conteúdo e da forma que há na música. Ambas partilham “ certas categorias seminais do ritmo, do fraseado, da cadência, da sonoridade, da entoação e medida”. A canção aparece de uma partilha em que as palavras gostam de si mesmas e transportam dentro delas uma musicalidade e pulsação naturais. A música, por sua vez, desperta as palavras que estão adormecidas nela.”São como um cristal/as palavras”, diz Eugénio. São “matérias-primas partilhadas”, como diria George Steiner. Um verso é emoção e nasce diretamente da voz. Ele preserva no seu interior a dinâmica da fala, da vocalização, por isso essa parentalidade com a música mas também com o teatro, a representação, a colocação da vida no palco, sendo o palco a própria vida-toda ela sonho como escreveu Calderon de la Barca.
Sendo a criação poética uma atividade intelectual de grande intensidade, a poesia tem uma universalidade que transporta necessariamente a liberdade com ela e assim dá voz ao futuro e á esperança, e mostra-nos a esperança como tempo futuro. É também uma espécie de aventura do espírito que pode rasgar janelas e destruir muros de ignomínia. Mas também é abismo e solidão e, segundo Echevarria, a solidão é sempre fundamento de liberdade. E mencionando apenas alguns poetas, homens e mulheres, que escreveram sobre a Liberdade, lembro Ricardo Reis, no ano da sua morte que confidencia “ serei livre, sem dita nem desdita/ como o vento que é vida”; e Sophia “ aqui livre sou eu/como eco da lua”, e Torga clamando “quero a liberdade/trago-a dentro de mim/como um destino”, e Antero num grito ”aspiro unicamente à liberdade”, e Ana Hatherley, numa certeza“ Canto-te para que tu definitivamente existas”, enquanto que Luiza Neto Jorge revela “o meu sono é leve para a liberdade (…)/acordas-me só de pensares nela”,  Jorge de Sena, exprime num desejo intenso “não hei-de morrer sem saber qual a cor da liberdade”.
E termino com Steiner que resume o que se pretendeu dizer: ”a poesia é como um happening coletivo que clama liberdade. E algures um cantor rebelde, um filósofo que a solidão embriaga, dirá :Não! Uma silaba carregada de promessa de criação.”
Lisboa, 3 de Julho de 2018
Guadalupe Magalhães Portelinha

Conclusões

Eu acho que as palavras não deveriam ter género, mas já que não é assim, dá-me um certo prazer especial entender que a palavra LIBERDADE é feminina. E como tudo o que é feminino tem agarrado a si um caminho longo de LUTA e de DEFESA dos valores universais que a ela está subjacente. A palavra LIBERDADE, associada a essas outras palavras femininas, tem uma enorme força simbólica para todas e todos que a querem manter como bandeira e farol das suas vidas. Há que lutar por ela, há que a defender, sempre!

Neste contexto de pensamento não podia faltar algo que nos define como povo-um país de poetas-, dizem, e aí surge na alvorada a palavra POESIA, feminina ela também, forma maior de expressão da Liberdade, que acolhe no regaço todos os seres humanos que se submetem à sua sedução. Por isso, neste 1º Fórum sobre “Liberdade e pensamento crítico”, se deu relevo à Poesia como meio de exprimir e fazer o casamento frutuoso e gerador de ação, entre a LIBERDADE e PENSAMENTO, esta, palavra masculina, fortíssima e essencial ao desenvolvimento humano. Não de forma intencional, mas de repente, parece que caio num certo erotismo, ao invocar os géneros das palavras e a sua união para exprimir o que se passou naquela sala dedicada à Poesia, sob a batuta da Liberdade. De facto, recordando agora à distância, depois da euforia do momento, estes resíduos/memórias deixados pelo decantar do tempo, em que os factos se vão desvanecendo, leva-me a reconhecer sim, essa sensualidade dentro da perspectiva de Adélia Prado quando diz que “erótica é a alma”, pois só ela pode propor caminhos ao corpo e ao espirito. Caminhos que envolvem todo o pensamento que luta pela liberdade física e moral, pois só em liberdade o corpo, o amor, a vida se podem desenvolver, podem florescer como na nossa simbologia dos cravos vermelhos. Lembro-me que Bergman dizia que vermelho é a cor da alma. Não é também a cor da paixão e da Liberdade?

Na sala Sophia experimentaram -se as mais diversas sensações e emoções: prazeres, dores, alegria e comoção, lágrimas e risos, dramas e paixões. As várias expressões artísticas que ali tiveram lugar, sem nunca se perder de vista o tema geral do Fórum, desde o teatro, a música e a poesia contribuíram para despertar e aprofundar em todos os presentes, diferentes sentimentos, criando ambientes com algo de mágico e puro, indo como que ao encontro de algo matricial, à essência, ao princípio dos princípios, à terra da Utopia, onde os seres humanos eram fundamentalmente livres e sem mácula. Tudo aconteceu graças às inestimáveis participações de todas e todos que colaboraram para criar um território fascinante, com a vastidão do efémero e encher de esperança os corações que por lá passaram. Graças aos poetas; graças aos poemas que foram escolhidos ou escritos pela sensibilidade e carinho daqueles que os partilharam com toda a gente; graças aos músicos que deram o complemento essencial e iluminaram ainda mais a paisagem que se construiu; graças então aos demiurgos Ana Freitas, André Fausto, Carlos Carranca, David Zink, grupo Acusa Teatro, José Fanha, José Sabugo, Josina Filipe, Luís Martins, Nuno Cadete, Vítor Sarmento, e muitos outros que da assembleia também se expressaram poeticamente.

Só os poetas nos sabem falar sobre o ser, o absoluto, o indefinido e criar uma ambiência de luz e êxtase e realizar a ficção da verdade. E, com ansiedade, assistimos a uma vasta galeria de personagens /poetas que cultivaram o hedonismo, a desobediência, que inventaram oseu destino, que transmitiram a sua capacidade de deslumbramento, a sua exortação ao pensamento crítico, à defesa da liberdade, o seu apelo à luta, ao amor, à vida.

Tanta coisa aconteceu, mas tão difícil é de sintetizar em algo de palpável e de objetivo. Como fazer? Talvez propor um jogo, um mergulho para lá do horizonte sempre desconhecido, logo ali onde o sol se põe. É um jogo de adivinhação para aqueles que não estiveram lá e é um exercício de reconhecimento para aqueles que contribuíram para a criação daquelas imagens impressivas, e que podem, e devem, corrigir-me, alterar, riscar, enfim, escrever outra coisa muito diferente, pois as vivências foram absolutamente subjetivas e únicas.

Assim, abusando do meu Poder de momento, vou usar a PALAVRA, na sua função matricial, e vou gerar um veio de palavras, de todos os géneros, que consegui recolher de alguns versos que ecoaram na sala e que vou juntar, tentando dar algum sentido às palavras soltas, roubadas aos poetas (que me perdoem!), para dizer o que aconteceu:

 

“Fui à loja das flores e comprei flores para ti, meu amor!

São as flores que exalam o perfume da liberdade e do canto

E perguntam porque cantamos

Porque a crueldade não tem nome

Mas tem nome o seu destino

A brisa das montanhas caminhou cantando para o muro de execução

Cantamos porque o rio está sonhando

E porque cortaram as asas à pomba branca

E o bico ao rouxinol

E  o  arco-iris ainda dorme no fundo do mar

A lua branca ilumina os seres carregados de mágoa e revolta

Um pássaro desconhecido mergulha cantando no coração da cidade

Pássaros de pedra voam em torno do seu coração

E um grito de esperança vem do fundo da morte

É preciso ocupar a pátria das palavras para que as coisas nomeadas voltem a nascer

Ao ouvir a voz do povo é que se aprende a verdade

Vamos cantar como uma ave ou um rio

Dar o teu braço aos que querem sonhar

Pela Liberdade que estais na terra

Que estais em mim, santificado seja o vosso nome

Porque sou poeta. Ando com a camisa do vento

Deixa-me ser tambor, só tambor

E rio, e flor e zagaia

A vida está à espera

Espera o grito dos homens, o clamor das mulheres

Mas é o silêncio dos versos, que afinal a nomeia

Mas todas as verdades hão-de acordar, cantando

Quem há-de vir sonhar coisas sonhadas?

Vamos nós procurar o caminho.

Vamos?

Eu vou à frente!”