II Fórum Liberdade e Pensamento Crítico
texto de apoio da Associação abril ao Fórum e conclusões
Associação abril
(…) É preciso criar nos homens e nas
mulheres a convicção de que o único valor que realmente possuem em si próprios
é a sua liberdade. (…) a liberdade de consciência como fundamento da democracia
supõe, numa sociedade como a nossa, a educação para a liberdade.(…) a educação
para a liberdade é fundamental para que a democracia assente não em palavras
vagas mas em cidadãos capazes de serem os sujeitos morais da sua própria
história.
Maria de Lourdes Pintasilgo
A abril – Associação regional para a democracia e o desenvolvimento – foi
criada em Maio de 1986. Os seus Estatutos apontam como objeto de sua atividade
a promoção do desenvolvimento social e da cidadania. É uma agremiação de cariz
político-cultural e defende o exercício da democracia participativa a par da
representativa, no caminho para a democratização plena da sociedade.
Entre as suas atividades contam-se predominantemente o debate esclarecedor
e de intervenção em matérias relevantes no contexto de cada momento, tanto em
áreas políticas e económicas, como sociais e culturais, tendo sempre como pano
de fundo o exercício da liberdade. Persegue por isso, em todas as suas
iniciativas, a promoção de um desenvolvimento social solidário, bem como a
defesa do meio ambiente e dos valores culturais e patrimoniais que emanam da
comunidade.
Uma das principais preocupações da Associação ABRIL é a de debater e
partilhar os valores que defende com os mais jovens, no âmbito do seu
compromisso com a promoção e desenvolvimento do pensamento crítico.
Neste contexto, se enquadra a sua participação e colaboração no Fórum
Liberdade e Pensamento crítico, tanto na sua 1ª edição, como na 2ª, que
ocorrerá no dia 9 de Novembro.
A Associação Abril tem como patrona Maria de Lourdes Pintasilgo (MLP), a
primeira mulher que em Portugal exerceu o cargo de Primeiro Ministro e também a
primeira mulher a candidatar-se à Presidência da República. Maria de Lourdes
Pintasilgo no seu programa político defendeu como ninguém o exercício da
democracia participativa, exortando os cidadãos para o gesto ativo e para o
compromisso, tendo como base os pilares que definem os Fóruns: a liberdade e o
pensamento crítico.
A Associação Abril, por sua vez, tem desenvolvido as suas actividades
dentro desta concepção programática, com as devidas adaptações, fazendo uma espécie
de radiografia do tempo e da sociedade que nos rodeia, no sentido de levantar
questões que possam ser levados a debate, o mais possível esclarecedor, de modo
a facilitar e induzir à ação.
No livro que MLP coordenou para as Nações Unidas, sob o título Cuidar o Futuro, de 1998, reúne, sem
peias e de uma forma directa, medidas radicais para responder aos desafios que
se colocam a todas as nações ricas e pobres, em relação às crises humanas,
económicas e ecológicas que atravessam o mundo. Estas medidas poderiam muito
bem ser objecto de reflexão de um próximo Fórum, de tal modo se identificam com
as premissas e objectivos que levaram à organização do Fórum Liberdade e
Pensamento Crítico, como por exemplo:
·
Fazer da Qualidade de Vida de todos os
seres humanos o objectivo último da ação social e política, nacional e
internacional;
·
Tomar a realização dos Direitos Humanos
universais como metas precisas da Qualidade de Vida de todas as sociedades e
estabelecer calendários para satisfação dos direitos à educação, à saúde, ao
trabalho, ao descanso, a um ambiente e a uma ecologia que garanta a
sobrevivência humana hoje e no futuro;
·
Promover os direitos específicos das
mulheres enquanto direitos humanos fundamentais e garantir, assim, a base
indispensável à estabilização da população mundial;
·
Rejeitar o domínio de um mercado cego que
toma os seres humanos como descartáveis e contribuir para as parcerias
indispensáveis a um novo contrato social;
·
Mobilizar os recursos financeiros necessários
a nível mundial, através de uma taxa sobre as transacções internacionais de
capital, de modo a garantir eficazmente a Qualidade de Vida para toda a
população do planeta.
A participação da associação abril no Fórum foi a vontade de tentar
construir algo de valor, em conjunto com outras organizações. Para nós,
trabalhar em conjunto, em rede, é desde logo um exercício de pensamento crítico
a que nos sujeitamos perante os outros e, simultaneamente, nos obrigamos,
muitas vezes com dificuldade, a mergulhar no mundo dos outros e a aceitar as
suas perspectivas, dentro do conceito maior de liberdade.
Então, o nosso objectivo primordial é tentar semear horizontes para a
construção de um futuro digno para todos. Só reflectindo sobre o presente se
pode construir o futuro. E para construir o futuro é preciso, antes de mais,
cuidá-lo. E cuidar com ternura, como ensinou MLP. São a ternura e o cuidado que
criam um universo de excelências, de significações existenciais, daquilo que
vale e ganha importância, em função do qual se pode sacrificar o tempo, o
empenho, e, às vezes, até a vida. Até Che Guevara assumiu este contrato de vida
com a ternura, dizendo que ”é preciso enrijecer, sem nunca perder a ternura”.
A raiz da nossa crise cultural, económica e social é uma aterradora falta
de cuidado e ternura de uns para com os outros, de todos para com a Natureza e
portanto para com o nosso próprio futuro.
Deve-se entender e dar importância à ligação entre ideias e ação, na certeza de que não deveria haver cortes entre economia e política, entre meios e fins, entre eficiência e equidade, entre métodos e valores, procurando associar a tudo isto o rigor, a democracia, nomeadamente a democracia participativa. É necessário pugnar por ir ao encontro de uma maior participação da opinião pública, de ouvir a voz dos cidadãos, de despertar consciências, educar para a cidadania, desenvolver o pensamento crítico, para que as pessoas se dêem conta de que ninguém pode pensar por elas, de que elas têm que ser donos das suas ideias, do seu destino, da sua própria história.
“Navegar é preciso…”
É preciso reclamar o desassossego, o bulir com ideias feitas, prosseguir na
necessidade de agir, mesmo com a palavra, mudar a vida, mudando de vida. É
preciso indignar-se com a injustiça, defender uma ética de futuro, de ter o
pensamento nas vítimas da História, organizar a intervenção cívica, na senda da
democracia cultural. É preciso reagir contra a perversão do liberalismo e
neoliberalismo que vão matando a humanidade existente nos seres humanos. É
preciso almejar um pacto de futuro e esperança entre os povos, entre as
religiões, preservar a memória. É preciso ouvir e respeitar a Terra, a “Pacha
Mama”, tão ameaçada pela ganância e pela ignorância. É preciso colocar a mulher
no lugar digno e ativo dentro da sociedade, pois ser mulher é ter um papel
ativo na construção de um mundo novo, é “alargar as fronteiras do possível”.
“É preciso lembrar que todas as conquistas conseguidas ao longo do séc. XX
são fruto, não de uma benesse da "economia de mercado", mas das lutas
dos povos que a economia de mercado utilizou apenas como mão-de-obra necessária
à criação de mais-valia, essa sim, não partilhada nem democratizada”(1).
É preciso considerar que o mundo é a casa de todos nós e que ninguém tem o
direito de colocar muros, arame farpado à volta de uma casa. É preciso
indignação para que ninguém continue a morrer nas águas dos oceanos, nos
caminhos da procura de uma vida de paz; ninguém pode morrer às mãos da “masculinidade tóxica”; ninguém pode morrer com balas perdidas.
É preciso reflectir sobre o papel não só da Utopia mas também da Distopia nas
nossas vidas, nas culturas, na política, na organização dos países, no
funcionamento do mundo. É preciso defender a Liberdade como vivência, como um
momento de consciência. É preciso cruzar linguagens, pontos de vista, ideias,
ideais, construir pontes, abrir caminhos entre a urgência da ação e a
serenidade da reflexão. É preciso “arrancar alegria ao futuro”, almejando
algumas utopias… Queremos que o futuro tenha um presente.
É preciso ousar, inovar, lutar, resistir pois “nunca ninguém levantou voo
que não fosse contra o vento”.
É preciso ouvir o conselho de Leonard Boff:”ensina teus passos /o caminho
dos sonhos/vives o tempo da coragem/a música do risco/ o tempo te desafia
clamando.”
Baseamos esta reflexão em premissas que assentam na certeza de que a partilha de conhecimento, da informação e de experiências é um meio eficaz para o enriquecimento pessoal e social das comunidades e dos povos. Para nosso enriquecimento também. Para além disso, a sua promoção e valorização contribuem para a multiplicação e difusão dos valores fundadores da nossa cultura, baseada na liberdade, equidade e fraternidade. Vamos, pois, agora e sempre defender o pensamento na ação, o pensamento crítico. A liberdade.
Maria Guadalupe Magalhães Portelinha
( Presidente da Associação abril)
(1) + Mário Moutinho, numa
sessão promovida pela abril denominada “Violência com todos os nomes: a Pobreza”,
na SPA.
II Fórum Liberdade e Pensamento Crítico
Conclusões do debate sobre o tema OBSCURANTISMOS na sala Carolina Beatriz Ângelo
Síntese biográfica dos convidados:
Isabel
A. Magalhães- professora universitária, doutorada em
Filologia Germânica; estudos teológicos na Universidade de Salamanca; leitora
na Universidade Nacional Autónoma do México; presidente da Juventude
universitária católica e do Graal; autora de várias obras, entre elas “Tempo
das mulheres”, “Antologia da Literatura Portuguesa” e “Para lá das Religiões”.
Jorge
Saraiva- Professor de Filosofia na Escola Secundária de Camões.
Actualmente lecciona uma disciplina de opção do 12º ano, Ciência Política, em protesto contra os exames de Filosofia, desde
que adoptaram o sistema de escolha múltipla…Muito ligado ao cinema, organiza
todas as segundas feiras, na escola, um filme aberto a toda a Comunidade; tem a
Direcção do ABC Cineclube.
Vítor
Lima- Licenciado em Economia pelo ISEG; preso político antes
do 25 de Abril; tem um blogue muito activo, denominado Grazia Tanta, com artigos fundamentados com estatísticas e números
sobre diversos temas ligados à política, economia e finanças, etc.
Eu vivo
em tempos sombrios
Uma linguagem sem malícia é sinal de
estupidez,
uma testa sem rugas é sinal de indiferença.
Aquele que ainda ri é porque ainda não
recebeu a terrível notícia.
Que
tempos são esses, quando
falar sobre flores é quase um crime.
Pois significa silenciar sobre tanta injustiça?
Aquele que cruza tranqüilamente a rua
já está então inacessível aos amigos
que se encontram necessitados?
É
verdade: eu ainda ganho o bastante para viver.
Mas acreditem: é por acaso. Nado do que eu faço
Dá-me o direito de comer quando eu tenho fome.
Por acaso estou sendo poupado.
(Se a minha sorte me deixa estou perdido!)
Dizem-me:
come e bebe!
Fica feliz por teres o que tens!
Mas como é que posso comer e beber,
se a comida que eu como, eu tiro de quem tem fome?
se o copo de água que eu bebo, faz falta a
quem tem sede?
Mas apesar disso, eu continuo comendo e bebendo.
(…)
A presença deste tema nos
debates nasce de uma preocupação resultante do seu significado em contraste com um mundo que se desejava e imaginava que
caminhasse no sentido da justiça, da liberdade e da felicidade. Apesar dos
muitos avanços em algumas questões e, em especial, em alguns lugares, a humanidade
continua a ser profundamente assimétrica, com 1% a deter toda riqueza do planeta , as guerras
pelo controlo de recursos naturais, os fanatismos religiosos, a luta pelo
poder. No mundo e nas sociedades que o
compõe, existem mundos variados, em estádios de bem-estar social muito diversos.
O modelo de desenvolvimento das sociedades ocidentais, pela sua acção predadora,
está a ser desmascarada quer pela exploração desenfreada dos recursos do planeta,
quer pela exploração e desequilíbrio da vida dos seres que o habitam- particularmente
dos povos originários- bem como da fauna e da flora.
A época em que vivemos já passou, pela viagem
de circum-navegação, pelo Iluminismo, pela revolução industrial e revoluções tecnológicas,
pelas viagens espaciais, a Inteligência artificial a manifestar-se no nosso dia
a dia e a impor-se a passos largos, enfim, uma série de antídotos que poderiam
combater os obscurantismos na nossa sociedade.
Mas não é assim.
O
obscurantismo de hoje apresenta-se em diversas modalidades, desassombradamente,
a manifestar-se no aspecto e espectro político, religioso, tecnológico, científico,
na comunicação social, nas relações individuais. Tem-se multiplicado, reavivado
e actualizado, provocando atitudes poderosas de restrição e manipulação do conhecimento,
no sentido de formar elites que subjuguem uma maioria de dominados, onde grassa
a ignorância, a superstição e o medo. Tudo contrário à liberdade e ao
pensamento crítico.
Os introdutores, acima referidos, abordaram
este tema, sob diversos pontos de vista, dando informações muito pertinentes e
actuais. Remeto os leitores para os textos que precederam os debates onde se
pode verificar, com mais pormenor, o que foi tratado. Aqui vou limitar- me a
elencar alguns aspectos
talvez os
mais pertinentes:
Vivemos debaixo de ganâncias de vária ordem:
política, financeira, económica, religiosa. Substituiu-se um horizonte de
humanismo, pautado pela generosidade e solidariedade, pelo egoísmo e
individualismo. A falta de transparência e claridade está no planeta inteiro.
Os meios de comunicação social servem a
política, sem quaisquer reservas de isenção e amplificam a informação tóxica,
falsa. Os factos reais ficam soterrados, como por exemplo, as questões ligadas
às alterações climáticas, em que demonstram total desinteresse ou preocupação
pelo desenvolvimento sustentado, e sem investigação e com preguiça aceitam o
parecer de determinadas equipas técnicas que, por sua vez, dizem o que lhes
mandam os governos.
Outro aspecto é o terrorismo em que os media demonstram
um comportamento obscuro e obscurantista, colocando sempre a tónica nos países árabes,
esquecendo por completo as causas, o papel dos colonizadores, do colonialismo humilhante
e a depredação actual de recursos. O individuo comum tem muita dificuldade em
aprofundar a verdade da informação que recebe.
O secretismo das seitas religiosas que cada
vez mais detêm um poder político em certos países, porque estão profundamente
ligados ao poder financeiro. As perseguições religiosas, mesmo de religiões
cuja base é a paz como a perseguição aos muçulmanos pelos budistas. De um dia
para o outro os vários países descobrem-se com as suas religiões e começam a
matar-se uns aos outros.
A nível da justiça, impera enorme falta de
transparência acerca das nomeações, distribuição de processos.
As questões ligadas à natureza dos espaços
urbanos, dificuldade de actuação dos cidadãos, de se fazerem ouvir sobre a
gestão de bens comuns.
As questões ligadas aos refugiados e imigrantes.
Os preconceitos que os levam a afastá-los e relegarem-nos para as periferias
das cidades. E a mensagem que é passada de que toda a gente está a imigrar,
parece que o mundo todo está a mexer e a provocar uma grande invasão, quando na
realidade são apenas 4% da população mundial.
Reservas e mentiras sobre a qualidade dos
alimentos, os interesses económicos subjacentes.
A nível político e económico há uma vontade
deliberada de ocultar a verdade. Parece que se voltou á idade das trevas. A
irracionalidade tomou conta da política, uma falta de vergonha, despudorada, valoriza-se
o mundo das aparências. A classe dominante a sonegar o poder às classes
dominadas, através de regimes autoritários. Este obscurantismo é alimento da plutocracia,
da corrupção da classe política e financeira, do ultraliberalismo.
Há uma discrepância fantástica entre o
progresso científico-tecnológico que nos devia levar a uma sociedade mais
igualitária, mas tal não acontece.
As situações das pessoas mais jovens, que não
têm mecanismos para se defenderem e distinguir o trigo do jóio, podem ser
facilmente manipuladas. Se não formos capazes de criar um movimento global que
combata a desinformação, vamos acabar com a democracia.
A vida difícil das pessoas e as promessas
falaciosas levam á superstição e à exploração de sentimentos mais primitivos,
mesquinhos e ao medo o que conduz a um obscurantismo primário.
Na
verdade parece que somos tomados por um obscurantismo atroz que domina todas as
vertentes da nossa vida, neste mundo que tem todos os mecanismos para que seja
exactamente o contrário.
Deixamos,
todavia, uma nota positiva: há algumas iniciativas para tentar melhorar a
informação que recebemos, a cultura que nos transmitem, a educação que nos
formata Há que acreditar na Humanidade e é fundamental agir, não deixar que nos
transformem nuns robots. Antes dar lugar à intrepidez e á humanidade
integradora, à solidariedade. Podemo-nos
interrogar como Brecht, e tentar que não se perca o sentido da vida e a
necessidade de mudança :”Ah, que tempo
este que falar de árvores se torna um crime. De certo modo estamos a silenciar
as injustiças”. Mas também dizer com Assis Pacheco: “eu dou cabo da escuridão
do mundo”.
GMP


