quinta-feira, 28 de janeiro de 2021


II Fórum Liberdade e Pensamento Crítico




 texto de apoio da Associação abril ao Fórum e conclusões

 Associação abril

 

(…) É preciso criar nos homens e nas mulheres a convicção de que o único valor que realmente possuem em si próprios é a sua liberdade. (…) a liberdade de consciência como fundamento da democracia supõe, numa sociedade como a nossa, a educação para a liberdade.(…) a educação para a liberdade é fundamental para que a democracia assente não em palavras vagas mas em cidadãos capazes de serem os sujeitos morais da sua própria história.

Maria de Lourdes Pintasilgo

 

A abril – Associação regional para a democracia e o desenvolvimento – foi criada em Maio de 1986. Os seus Estatutos apontam como objeto de sua atividade a promoção do desenvolvimento social e da cidadania. É uma agremiação de cariz político-cultural e defende o exercício da democracia participativa a par da representativa, no caminho para a democratização plena da sociedade.

Entre as suas atividades contam-se predominantemente o debate esclarecedor e de intervenção em matérias relevantes no contexto de cada momento, tanto em áreas políticas e económicas, como sociais e culturais, tendo sempre como pano de fundo o exercício da liberdade. Persegue por isso, em todas as suas iniciativas, a promoção de um desenvolvimento social solidário, bem como a defesa do meio ambiente e dos valores culturais e patrimoniais que emanam da comunidade.

Uma das principais preocupações da Associação ABRIL é a de debater e partilhar os valores que defende com os mais jovens, no âmbito do seu compromisso com a promoção e desenvolvimento do pensamento crítico.

Neste contexto, se enquadra a sua participação e colaboração no Fórum Liberdade e Pensamento crítico, tanto na sua 1ª edição, como na 2ª, que ocorrerá no dia 9 de Novembro.

A Associação Abril tem como patrona Maria de Lourdes Pintasilgo (MLP), a primeira mulher que em Portugal exerceu o cargo de Primeiro Ministro e também a primeira mulher a candidatar-se à Presidência da República. Maria de Lourdes Pintasilgo no seu programa político defendeu como ninguém o exercício da democracia participativa, exortando os cidadãos para o gesto ativo e para o compromisso, tendo como base os pilares que definem os Fóruns: a liberdade e o pensamento crítico.

A Associação Abril, por sua vez, tem desenvolvido as suas actividades dentro desta concepção programática, com as devidas adaptações, fazendo uma espécie de radiografia do tempo e da sociedade que nos rodeia, no sentido de levantar questões que possam ser levados a debate, o mais possível esclarecedor, de modo a facilitar e induzir à ação.

No livro que MLP coordenou para as Nações Unidas, sob o título Cuidar o Futuro, de 1998, reúne, sem peias e de uma forma directa, medidas radicais para responder aos desafios que se colocam a todas as nações ricas e pobres, em relação às crises humanas, económicas e ecológicas que atravessam o mundo. Estas medidas poderiam muito bem ser objecto de reflexão de um próximo Fórum, de tal modo se identificam com as premissas e objectivos que levaram à organização do Fórum Liberdade e Pensamento Crítico, como por exemplo:

·        Fazer da Qualidade de Vida de todos os seres humanos o objectivo último da ação social e política, nacional e internacional;

·        Tomar a realização dos Direitos Humanos universais como metas precisas da Qualidade de Vida de todas as sociedades e estabelecer calendários para satisfação dos direitos à educação, à saúde, ao trabalho, ao descanso, a um ambiente e a uma ecologia que garanta a sobrevivência humana hoje e no futuro;

·        Promover os direitos específicos das mulheres enquanto direitos humanos fundamentais e garantir, assim, a base indispensável à estabilização da população mundial;

·        Rejeitar o domínio de um mercado cego que toma os seres humanos como descartáveis e contribuir para as parcerias indispensáveis a um novo contrato social;

·        Mobilizar os recursos financeiros necessários a nível mundial, através de uma taxa sobre as transacções internacionais de capital, de modo a garantir eficazmente a Qualidade de Vida para toda a população do planeta.

 

A participação da associação abril no Fórum foi a vontade de tentar construir algo de valor, em conjunto com outras organizações. Para nós, trabalhar em conjunto, em rede, é desde logo um exercício de pensamento crítico a que nos sujeitamos perante os outros e, simultaneamente, nos obrigamos, muitas vezes com dificuldade, a mergulhar no mundo dos outros e a aceitar as suas perspectivas, dentro do conceito maior de liberdade.

Então, o nosso objectivo primordial é tentar semear horizontes para a construção de um futuro digno para todos. Só reflectindo sobre o presente se pode construir o futuro. E para construir o futuro é preciso, antes de mais, cuidá-lo. E cuidar com ternura, como ensinou MLP. São a ternura e o cuidado que criam um universo de excelências, de significações existenciais, daquilo que vale e ganha importância, em função do qual se pode sacrificar o tempo, o empenho, e, às vezes, até a vida. Até Che Guevara assumiu este contrato de vida com a ternura, dizendo que ”é preciso enrijecer, sem nunca perder a ternura”.

A raiz da nossa crise cultural, económica e social é uma aterradora falta de cuidado e ternura de uns para com os outros, de todos para com a Natureza e portanto para com o nosso próprio futuro.

Deve-se entender e dar importância à ligação entre ideias e ação, na certeza de que não deveria haver cortes entre economia e política, entre meios e fins, entre eficiência e equidade, entre métodos e valores, procurando associar a tudo isto o rigor, a democracia, nomeadamente a democracia participativa. É necessário pugnar por ir ao encontro de uma maior participação da opinião pública, de ouvir a voz dos cidadãos, de despertar consciências, educar para a cidadania, desenvolver o pensamento crítico, para que as pessoas se dêem conta de que ninguém pode pensar por elas, de que elas têm que ser donos das suas ideias, do seu destino, da sua própria história.

“Navegar é preciso…”

É preciso reclamar o desassossego, o bulir com ideias feitas, prosseguir na necessidade de agir, mesmo com a palavra, mudar a vida, mudando de vida. É preciso indignar-se com a injustiça, defender uma ética de futuro, de ter o pensamento nas vítimas da História, organizar a intervenção cívica, na senda da democracia cultural. É preciso reagir contra a perversão do liberalismo e neoliberalismo que vão matando a humanidade existente nos seres humanos. É preciso almejar um pacto de futuro e esperança entre os povos, entre as religiões, preservar a memória. É preciso ouvir e respeitar a Terra, a “Pacha Mama”, tão ameaçada pela ganância e pela ignorância. É preciso colocar a mulher no lugar digno e ativo dentro da sociedade, pois ser mulher é ter um papel ativo na construção de um mundo novo, é “alargar as fronteiras do possível”.

“É preciso lembrar que todas as conquistas conseguidas ao longo do séc. XX são fruto, não de uma benesse da "economia de mercado", mas das lutas dos povos que a economia de mercado utilizou apenas como mão-de-obra necessária à criação de mais-valia, essa sim, não partilhada nem democratizada”(1). É preciso considerar que o mundo é a casa de todos nós e que ninguém tem o direito de colocar muros, arame farpado à volta de uma casa. É preciso indignação para que ninguém continue a morrer nas águas dos oceanos, nos caminhos da procura de uma vida de paz; ninguém pode morrer às mãos da “masculinidade  tóxica”; ninguém pode morrer com balas perdidas. É preciso reflectir sobre o papel não só da Utopia mas também da Distopia nas nossas vidas, nas culturas, na política, na organização dos países, no funcionamento do mundo. É preciso defender a Liberdade como vivência, como um momento de consciência. É preciso cruzar linguagens, pontos de vista, ideias, ideais, construir pontes, abrir caminhos entre a urgência da ação e a serenidade da reflexão. É preciso “arrancar alegria ao futuro”, almejando algumas utopias… Queremos que o futuro tenha um presente.

É preciso ousar, inovar, lutar, resistir pois “nunca ninguém levantou voo que não fosse contra o vento”.

É preciso ouvir o conselho de Leonard Boff:”ensina teus passos /o caminho dos sonhos/vives o tempo da coragem/a música do risco/ o tempo te desafia clamando.”

 

Baseamos esta reflexão em premissas que assentam na certeza de que a partilha de conhecimento, da informação e de experiências é um meio eficaz para o enriquecimento pessoal e social das comunidades e dos povos. Para nosso enriquecimento também. Para além disso, a sua promoção e valorização contribuem para a multiplicação e difusão dos valores fundadores da nossa cultura, baseada na liberdade, equidade e fraternidade. Vamos, pois, agora e sempre defender o pensamento na ação, o pensamento crítico. A liberdade.

Maria Guadalupe Magalhães Portelinha

( Presidente da Associação abril) 

(1) + Mário Moutinho, numa sessão promovida pela abril denominada “Violência com todos os nomes: a Pobreza”, na SPA.

 II Fórum Liberdade e Pensamento Crítico

Conclusões  do debate sobre o tema OBSCURANTISMOS na sala Carolina Beatriz Ângelo





Síntese biográfica dos convidados:

Isabel A. Magalhães- professora universitária, doutorada em Filologia Germânica; estudos teológicos na Universidade de Salamanca; leitora na Universidade Nacional Autónoma do México; presidente da Juventude universitária católica e do Graal; autora de várias obras, entre elas “Tempo das mulheres”, “Antologia da Literatura Portuguesa” e “Para lá das Religiões”.

Jorge Saraiva- Professor de Filosofia na Escola Secundária de Camões. Actualmente lecciona uma disciplina de opção do 12º ano, Ciência Política, em protesto contra os exames de Filosofia, desde que adoptaram o sistema de escolha múltipla…Muito ligado ao cinema, organiza todas as segundas feiras, na escola, um filme aberto a toda a Comunidade; tem a Direcção do ABC Cineclube.

Vítor Lima- Licenciado em Economia pelo ISEG; preso político antes do 25 de Abril; tem um blogue muito activo, denominado Grazia Tanta, com artigos fundamentados com estatísticas e números sobre diversos temas ligados à política, economia e finanças, etc.

Aos que virão depois de nós
I

Eu vivo em tempos sombrios
Uma linguagem sem malícia é sinal de
estupidez,
uma testa sem rugas é sinal de indiferença.
Aquele que ainda ri é porque ainda não
recebeu a terrível notícia.

Que tempos são esses, quando
falar sobre flores é quase um crime.
Pois significa silenciar sobre tanta injustiça?
Aquele que cruza tranqüilamente a rua
já está então inacessível aos amigos
que se encontram necessitados?

É verdade: eu ainda ganho o bastante para viver.
Mas acreditem: é por acaso. Nado do que eu faço
Dá-me o direito de comer quando eu tenho fome.
Por acaso estou sendo poupado.
(Se a minha sorte me deixa estou perdido!)

Dizem-me: come e bebe!
Fica feliz por teres o que tens!
Mas como é que posso comer e beber,
se a comida que eu como, eu tiro de quem tem fome?
se o copo de água que eu bebo, faz falta a
quem tem sede?
Mas apesar disso, eu continuo comendo e bebendo.

(…)

A presença deste tema nos debates nasce de uma preocupação resultante do seu significado em contraste  com um mundo que se desejava e imaginava que caminhasse no sentido da justiça, da liberdade e da felicidade. Apesar dos muitos avanços em algumas questões e, em especial, em alguns lugares, a humanidade continua a ser profundamente assimétrica, com 1%  a deter toda riqueza do planeta , as guerras pelo controlo de recursos naturais, os fanatismos religiosos, a luta pelo poder.  No mundo e nas sociedades que o compõe, existem mundos variados, em estádios de bem-estar social muito diversos. O modelo de desenvolvimento das sociedades ocidentais, pela sua acção predadora, está a ser desmascarada quer pela exploração desenfreada dos recursos do planeta, quer pela exploração e desequilíbrio da vida dos seres que o habitam- particularmente dos povos originários- bem como da fauna e da flora.

A época em que vivemos já passou, pela viagem de circum-navegação, pelo Iluminismo, pela revolução industrial e revoluções tecnológicas, pelas viagens espaciais, a Inteligência artificial a manifestar-se no nosso dia a dia e a impor-se a passos largos, enfim, uma série de antídotos que poderiam combater os obscurantismos na nossa sociedade.

Mas não é assim.

O obscurantismo de hoje apresenta-se em diversas modalidades, desassombradamente, a manifestar-se no aspecto e espectro político, religioso, tecnológico, científico, na comunicação social, nas relações individuais. Tem-se multiplicado, reavivado e actualizado, provocando atitudes poderosas de restrição e manipulação do conhecimento, no sentido de formar elites que subjuguem uma maioria de dominados, onde grassa a ignorância, a superstição e o medo. Tudo contrário à liberdade e ao pensamento crítico.

Os introdutores, acima referidos, abordaram este tema, sob diversos pontos de vista, dando informações muito pertinentes e actuais. Remeto os leitores para os textos que precederam os debates onde se pode verificar, com mais pormenor, o que foi tratado. Aqui vou limitar- me a elencar alguns aspectos

talvez os  mais pertinentes:

Vivemos debaixo de ganâncias de vária ordem: política, financeira, económica, religiosa. Substituiu-se um horizonte de humanismo, pautado pela generosidade e solidariedade, pelo egoísmo e individualismo. A falta de transparência e claridade está no planeta inteiro.

Os meios de comunicação social servem a política, sem quaisquer reservas de isenção e amplificam a informação tóxica, falsa. Os factos reais ficam soterrados, como por exemplo, as questões ligadas às alterações climáticas, em que demonstram total desinteresse ou preocupação pelo desenvolvimento sustentado, e sem investigação e com preguiça aceitam o parecer de determinadas equipas técnicas que, por sua vez, dizem o que lhes mandam os governos.

Outro aspecto é o terrorismo em que os media demonstram um comportamento obscuro e obscurantista, colocando sempre a tónica nos países árabes, esquecendo por completo as causas, o papel dos colonizadores, do colonialismo humilhante e a depredação actual de recursos. O individuo comum tem muita dificuldade em aprofundar a verdade da informação que recebe.

O secretismo das seitas religiosas que cada vez mais detêm um poder político em  certos países, porque estão profundamente ligados ao poder financeiro. As perseguições religiosas, mesmo de religiões cuja base é a paz como a perseguição aos muçulmanos pelos budistas. De um dia para o outro os vários países descobrem-se com as suas religiões e começam a matar-se uns aos outros.

A nível da justiça, impera enorme falta de transparência acerca das nomeações, distribuição de processos.

As questões ligadas à natureza dos espaços urbanos, dificuldade de actuação dos cidadãos, de se fazerem ouvir sobre a gestão de bens comuns.

As questões ligadas aos refugiados e imigrantes. Os preconceitos que os levam a afastá-los e relegarem-nos para as periferias das cidades. E a mensagem que é passada de que toda a gente está a imigrar, parece que o mundo todo está a mexer e a provocar uma grande invasão, quando na realidade são apenas 4% da população mundial.

Reservas e mentiras sobre a qualidade dos alimentos, os interesses económicos subjacentes.

A nível político e económico há uma vontade deliberada de ocultar a verdade. Parece que se voltou á idade das trevas. A irracionalidade tomou conta da política, uma falta de vergonha, despudorada, valoriza-se o mundo das aparências. A classe dominante a sonegar o poder às classes dominadas, através de regimes autoritários. Este obscurantismo é alimento da plutocracia, da corrupção da classe política e financeira, do ultraliberalismo.

Há uma discrepância fantástica entre o progresso científico-tecnológico que nos devia levar a uma sociedade mais igualitária, mas tal não acontece.

As situações das pessoas mais jovens, que não têm mecanismos para se defenderem e distinguir o trigo do jóio, podem ser facilmente manipuladas. Se não formos capazes de criar um movimento global que combata a desinformação, vamos acabar com a democracia.

A vida difícil das pessoas e as promessas falaciosas levam á superstição e à exploração de sentimentos mais primitivos, mesquinhos e ao medo o que conduz a um obscurantismo primário.

Na verdade parece que somos tomados por um obscurantismo atroz que domina todas as vertentes da nossa vida, neste mundo que tem todos os mecanismos para que seja exactamente o contrário.

Deixamos, todavia, uma nota positiva: há algumas iniciativas para tentar melhorar a informação que recebemos, a cultura que nos transmitem, a educação que nos formata Há que acreditar na Humanidade e é fundamental agir, não deixar que nos transformem nuns robots. Antes dar lugar à intrepidez e á humanidade integradora, à solidariedade. Podemo-nos  interrogar como Brecht, e tentar que não se perca o sentido da vida e a necessidade de  mudança :”Ah, que tempo este que falar de árvores se torna um crime. De certo modo estamos a silenciar as injustiças”. Mas também dizer com Assis Pacheco: “eu dou cabo da escuridão do mundo”.

GMP

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

sexta-feira, 24 de maio de 2019


Sessão sobre o Iraque , na Torre do Tombo

Mãe, conta-me uma história...

- Mãe, onde nasceram as palavras? Não as palavras da boca, mas as palavras no papel, que têm letras muito juntinhas, que vivem abraçadas e nos fazem rir, chorar ou pensar?

- Como dizer-lhe que as palavras escritas terão nascido nesse lugar de guerra, onde a crueldade e a ganância apagaram a palavra amor?
Como dizer-lhe que no País dos rios Tigre e Eufrates, rios de margens férteis de cultura, nascedouro de várias civilizações, as palavras dor e morte incendeiam as palavras luta e coragem, no coração dos homens, das mulheres e das crianças?
Como dizer-lhe que os monstros engoliram o tempo e sorveram a memória, que as pedras da História ficaram perdidas debaixo das botas cardadas, da poeira tóxica, do ferro pesado e incandescente, dos olhares ignorantes, do desprezo e da indiferença?
Como dizer-lhe da terra queimada, do horror, do grito das crianças, do choro das mulheres, da raiva dos homens, da imolação dos mártires, da morte da esperança, da violência sempre a crescer?

-Mãe, porque te calas? Porque tens os olhos tristes?
Está bem, conta-me então, outra história: a história do Índio Jerónimo, daquele que não podia vender a terra ao homem branco, como não podia vender  o sol, a chuva, o vento...

- Como dizer-lhe que os homens da terra do Índio da Utopia, usam a mentira e a tortura, roubam a esperança, matam todas as palavras de alegria, chupam o sangue da terra de meninos que não chegam a crescer, da terra castanha e verde, daqueles que inventaram essa palavra pequenina de letras abraçadas, que significa Paz?


Maria Guadalupe Magalhães Portelinha
 Lisboa, 19 de Março de 2005

sábado, 7 de julho de 2018

“Todo o pensamento começa por um poema”


FÓRUM LIBERDADE E PENSAMENTO CRITICO
14 de Julho-Liceu Camões

“Todo o pensamento começa por um poema”, ensinava Alain no seu diálogo com Valéry.
Neste tempo, sem tempo, de permanente corrida contra ele e não com ele, o tema da liberdade, por ser intemporal deve e tem que acompanhar a vida de cada pessoa, não se vá ela perder ou disfarçar, assumindo formas perversas e enganadoras. Por isso é também fundamental o conceito de pensamento crítico associado à Liberdade bem como à Equidade e Fraternidade, pilares maiores da nossa civilização. O conceito de pensamento crítico ainda hoje difícil de organizar e desenvolver nas sociedades humanas, traz- me à memória a figura de uma mulher que nasceu no ano 350, num tempo, como o de hoje, em muitos lugares do mundo, em que eram sonegados à mulher o direitos mais fundamentais, incluindo a sua capacidade de pensar. Falo de  Hepatia de Alexandria, que disse, na sua sabedoria de mulher sem direitos, mas inteligente, consciente e lutadora, “ reserva o teu direito de pensar. Mesmo pensando errado, é melhor pensar do que não pensar”. Esta mulher ao exortar ao exercício do pensamento e à prática da reflexão, aponta caminhos que levam ao questionamento, à interrogação, à procura de respostas para o desconhecido, à tomada de decisões e à respetiva responsabilização, à partilha do pensamento com os outros e também à desobediência…Hepatia tinha, contudo, consciência de que estas vias só se conseguem em pleno se houver liberdade, o que ela só conseguiu por breves períodos, em poder manifestar e expandir os seus talentos, acabando, no entanto, por ser assassinada, devido à sua ousadia. É essa tomada de consciência que tem levado milhares de seres humanos a lutar e morrer, ao longo dos tempos, para conquistar a liberdade e mantê-la bem próxima de si, pois a História demonstra que não é um bem adquirido para sempre. Em qualquer momento se pode perder por tempo indeterminado…
 Aliada ao pensamento e à reflexão, também a comunicação é essencial para realizar o ser humano enquanto pessoa e permitir a criação de vínculos de uns para com os outros. Por isso, num grupo ou numa comunidade, é fundamental, que se desenvolva desde cedo o hábito de pensar, refletir e comunicar o que leva a que se possa usar, da melhor forma, a demonstração e a argumentação para se defenderem e preservarem os princípios e valores que lhes são caros, como os que movem a realização deste Fórum. O apelo à análise, em várias vertentes, do tema Liberdade e pensamento crítico vai no sentido de que se se compreender e estimular a capacidade de reflexão e argumentação, dá-se um passo muito importante para que cada cidadão e cada cidadã se constitua membro ativo da sua comunidade e para que o conceito de cidadania alcance o seu verdadeiro significado e a sua expressão mais profunda.
Como pode então a poesia inserir-se nesta elaboração de pensamento, nesta reflexão, nesta procura, nesta luta, em suma, na defesa da liberdade?
Atahualpa Yupanki, de entre as muitas das suas canções, chamadas de protesto, cantou uma que começa assim:”yo tengo  tantos hermanos/que no los puedo contar/y una hermana muy hermosa/que se lhama libertad”.E esta luta pela defesa desta irmã mais formosa perpassou por toda a sua obra e a sua vida, levando esta mensagem aos quatro cantos do mundo. Como ele muitos outros também, ao longo dos tempos e em diversas línguas o fizeram, como o inesquecível Zeca Afonso. No entanto, não é apenas nos cantos que são armas que a palavra poética se pode manifestar refletindo o desejo ou a perda de Liberdade. Nos poemas mais líricos, as palavras tomam asas e revelam os mais profundos sentimentos ou emoções como enunciação de liberdade que pode ser não apenas física mas ir ao âmago mais profundo da humanidade de cada sujeito- aqui ouve-se, por exemplo, Florbela “Meu doido coração aonde vais,/No teu imenso anseio de liberdade?”- construindo o seu caminho na senda da verdade, reafirmando o que Heraclito defendia ao dizer que “a poesia e a verdade são sinónimos”, e eu atrevo-me a acrescentar mais um sinónimo à verdade, que é a liberdade.
Muitos poetas de todo o mundo elegeram a liberdade como mote de alguns dos seus escritos, quer pela falta dela, quer pela necessidade de a preservar, nomearam-na, como Paul Eluard, e também como muitos poetas nossos. A poesia lança as sementes à terra que é lavrada pela mão e alma dos poetas e, uma dessas sementes, é aquela irmã mais formosa que se chama liberdade. Ao longo do tempo homens e mulheres têm usado as palavras para além da sua função comunicativa transformando-as em poemas, canções, teatro, filosofia, permitindo à Liberdade um terreno fértil para florir.
George Steiner tem um livro a que deu o título “A poesia do pensamento”. Nada podia ser mais verdadeiro, nem mais significativo. Esta noção eleva a poesia aos mais altos patamares da cultura humana. Poesia e pensamento caminham lado a lado em todos os atos da vida, pelo que quando identificamos em Cervantes o retrato do herói que é o género humano, representado por D.Quixote e Sancho Pança, vê-se a humanidade na sua busca incessante, do sonho, da liberdade e da Utopia. Sartre afirma que a filosofia se exprime através de uma linguagem literária. Há como que uma conjugação individual do filosófico e do poético, numa parábola de espelhos. Renée Char punha a poesia acima da Filosofia, o que é reforçado por Althusser que afirma que o pensamento filosófico só pode realizar-se metaforicamente, ou seja, pela poesia. Uma ideia explica-se. Uma emoção manifesta-se numa palavra expressiva, numa imagem pois “há poesia em tudo”, como dizia Pessoa. A poesia é assombro, admiração, liberdade, que se faz com as mãos como escreveu Alegre e cantou Adriano. Coleridge afirma que “a prosa é as palavras dispostas na melhor ordem, enquanto a poesia é as melhores palavras dispostas na melhor ordem”. Daqui partir para a ligação da poesia à música parece obvio, ou seja , a poesia aproxima-se extremamente da fusão do conteúdo e da forma que há na música. Ambas partilham “ certas categorias seminais do ritmo, do fraseado, da cadência, da sonoridade, da entoação e medida”. A canção aparece de uma partilha em que as palavras gostam de si mesmas e transportam dentro delas uma musicalidade e pulsação naturais. A música, por sua vez, desperta as palavras que estão adormecidas nela.”São como um cristal/as palavras”, diz Eugénio. São “matérias-primas partilhadas”, como diria George Steiner. Um verso é emoção e nasce diretamente da voz. Ele preserva no seu interior a dinâmica da fala, da vocalização, por isso essa parentalidade com a música mas também com o teatro, a representação, a colocação da vida no palco, sendo o palco a própria vida-toda ela sonho como escreveu Calderon de la Barca.
Sendo a criação poética uma atividade intelectual de grande intensidade, a poesia tem uma universalidade que transporta necessariamente a liberdade com ela e assim dá voz ao futuro e á esperança, e mostra-nos a esperança como tempo futuro. É também uma espécie de aventura do espírito que pode rasgar janelas e destruir muros de ignomínia. Mas também é abismo e solidão e, segundo Echevarria, a solidão é sempre fundamento de liberdade. E mencionando apenas alguns poetas, homens e mulheres, que escreveram sobre a Liberdade, lembro Ricardo Reis, no ano da sua morte que confidencia “ serei livre, sem dita nem desdita/ como o vento que é vida”; e Sophia “ aqui livre sou eu/como eco da lua”, e Torga clamando “quero a liberdade/trago-a dentro de mim/como um destino”, e Antero num grito ”aspiro unicamente à liberdade”, e Ana Hatherley, numa certeza“ Canto-te para que tu definitivamente existas”, enquanto que Luiza Neto Jorge revela “o meu sono é leve para a liberdade (…)/acordas-me só de pensares nela”,  Jorge de Sena, exprime num desejo intenso “não hei-de morrer sem saber qual a cor da liberdade”.
E termino com Steiner que resume o que se pretendeu dizer: ”a poesia é como um happening coletivo que clama liberdade. E algures um cantor rebelde, um filósofo que a solidão embriaga, dirá :Não! Uma silaba carregada de promessa de criação.”
Lisboa, 3 de Julho de 2018
Guadalupe Magalhães Portelinha

Conclusões

Eu acho que as palavras não deveriam ter género, mas já que não é assim, dá-me um certo prazer especial entender que a palavra LIBERDADE é feminina. E como tudo o que é feminino tem agarrado a si um caminho longo de LUTA e de DEFESA dos valores universais que a ela está subjacente. A palavra LIBERDADE, associada a essas outras palavras femininas, tem uma enorme força simbólica para todas e todos que a querem manter como bandeira e farol das suas vidas. Há que lutar por ela, há que a defender, sempre!

Neste contexto de pensamento não podia faltar algo que nos define como povo-um país de poetas-, dizem, e aí surge na alvorada a palavra POESIA, feminina ela também, forma maior de expressão da Liberdade, que acolhe no regaço todos os seres humanos que se submetem à sua sedução. Por isso, neste 1º Fórum sobre “Liberdade e pensamento crítico”, se deu relevo à Poesia como meio de exprimir e fazer o casamento frutuoso e gerador de ação, entre a LIBERDADE e PENSAMENTO, esta, palavra masculina, fortíssima e essencial ao desenvolvimento humano. Não de forma intencional, mas de repente, parece que caio num certo erotismo, ao invocar os géneros das palavras e a sua união para exprimir o que se passou naquela sala dedicada à Poesia, sob a batuta da Liberdade. De facto, recordando agora à distância, depois da euforia do momento, estes resíduos/memórias deixados pelo decantar do tempo, em que os factos se vão desvanecendo, leva-me a reconhecer sim, essa sensualidade dentro da perspectiva de Adélia Prado quando diz que “erótica é a alma”, pois só ela pode propor caminhos ao corpo e ao espirito. Caminhos que envolvem todo o pensamento que luta pela liberdade física e moral, pois só em liberdade o corpo, o amor, a vida se podem desenvolver, podem florescer como na nossa simbologia dos cravos vermelhos. Lembro-me que Bergman dizia que vermelho é a cor da alma. Não é também a cor da paixão e da Liberdade?

Na sala Sophia experimentaram -se as mais diversas sensações e emoções: prazeres, dores, alegria e comoção, lágrimas e risos, dramas e paixões. As várias expressões artísticas que ali tiveram lugar, sem nunca se perder de vista o tema geral do Fórum, desde o teatro, a música e a poesia contribuíram para despertar e aprofundar em todos os presentes, diferentes sentimentos, criando ambientes com algo de mágico e puro, indo como que ao encontro de algo matricial, à essência, ao princípio dos princípios, à terra da Utopia, onde os seres humanos eram fundamentalmente livres e sem mácula. Tudo aconteceu graças às inestimáveis participações de todas e todos que colaboraram para criar um território fascinante, com a vastidão do efémero e encher de esperança os corações que por lá passaram. Graças aos poetas; graças aos poemas que foram escolhidos ou escritos pela sensibilidade e carinho daqueles que os partilharam com toda a gente; graças aos músicos que deram o complemento essencial e iluminaram ainda mais a paisagem que se construiu; graças então aos demiurgos Ana Freitas, André Fausto, Carlos Carranca, David Zink, grupo Acusa Teatro, José Fanha, José Sabugo, Josina Filipe, Luís Martins, Nuno Cadete, Vítor Sarmento, e muitos outros que da assembleia também se expressaram poeticamente.

Só os poetas nos sabem falar sobre o ser, o absoluto, o indefinido e criar uma ambiência de luz e êxtase e realizar a ficção da verdade. E, com ansiedade, assistimos a uma vasta galeria de personagens /poetas que cultivaram o hedonismo, a desobediência, que inventaram oseu destino, que transmitiram a sua capacidade de deslumbramento, a sua exortação ao pensamento crítico, à defesa da liberdade, o seu apelo à luta, ao amor, à vida.

Tanta coisa aconteceu, mas tão difícil é de sintetizar em algo de palpável e de objetivo. Como fazer? Talvez propor um jogo, um mergulho para lá do horizonte sempre desconhecido, logo ali onde o sol se põe. É um jogo de adivinhação para aqueles que não estiveram lá e é um exercício de reconhecimento para aqueles que contribuíram para a criação daquelas imagens impressivas, e que podem, e devem, corrigir-me, alterar, riscar, enfim, escrever outra coisa muito diferente, pois as vivências foram absolutamente subjetivas e únicas.

Assim, abusando do meu Poder de momento, vou usar a PALAVRA, na sua função matricial, e vou gerar um veio de palavras, de todos os géneros, que consegui recolher de alguns versos que ecoaram na sala e que vou juntar, tentando dar algum sentido às palavras soltas, roubadas aos poetas (que me perdoem!), para dizer o que aconteceu:

 

“Fui à loja das flores e comprei flores para ti, meu amor!

São as flores que exalam o perfume da liberdade e do canto

E perguntam porque cantamos

Porque a crueldade não tem nome

Mas tem nome o seu destino

A brisa das montanhas caminhou cantando para o muro de execução

Cantamos porque o rio está sonhando

E porque cortaram as asas à pomba branca

E o bico ao rouxinol

E  o  arco-iris ainda dorme no fundo do mar

A lua branca ilumina os seres carregados de mágoa e revolta

Um pássaro desconhecido mergulha cantando no coração da cidade

Pássaros de pedra voam em torno do seu coração

E um grito de esperança vem do fundo da morte

É preciso ocupar a pátria das palavras para que as coisas nomeadas voltem a nascer

Ao ouvir a voz do povo é que se aprende a verdade

Vamos cantar como uma ave ou um rio

Dar o teu braço aos que querem sonhar

Pela Liberdade que estais na terra

Que estais em mim, santificado seja o vosso nome

Porque sou poeta. Ando com a camisa do vento

Deixa-me ser tambor, só tambor

E rio, e flor e zagaia

A vida está à espera

Espera o grito dos homens, o clamor das mulheres

Mas é o silêncio dos versos, que afinal a nomeia

Mas todas as verdades hão-de acordar, cantando

Quem há-de vir sonhar coisas sonhadas?

Vamos nós procurar o caminho.

Vamos?

Eu vou à frente!”