Sessão sobre o Iraque , na Torre do Tombo
Mãe,
conta-me uma história...
-
Mãe, onde nasceram as palavras? Não as palavras da boca, mas as palavras no
papel, que têm letras muito juntinhas, que vivem abraçadas e nos fazem rir,
chorar ou pensar?
-
Como dizer-lhe que as palavras escritas terão nascido nesse lugar de guerra,
onde a crueldade e a ganância apagaram a palavra amor?
Como dizer-lhe que no País dos rios Tigre e Eufrates,
rios de margens férteis de cultura, nascedouro de várias civilizações, as
palavras dor e morte incendeiam as palavras luta e coragem, no coração dos
homens, das mulheres e das crianças?
Como dizer-lhe que os monstros engoliram o tempo e
sorveram a memória, que as pedras da História ficaram perdidas debaixo das
botas cardadas, da poeira tóxica, do ferro pesado e incandescente, dos olhares
ignorantes, do desprezo e da indiferença?
Como dizer-lhe da terra queimada, do horror, do grito
das crianças, do choro das mulheres, da raiva dos homens, da imolação dos
mártires, da morte da esperança, da violência sempre a crescer?
-Mãe,
porque te calas? Porque tens os olhos tristes?
Está
bem, conta-me então, outra história: a história do Índio Jerónimo, daquele que
não podia vender a terra ao homem branco, como não podia vender o sol, a chuva, o vento...
-
Como dizer-lhe que os homens da terra do Índio da Utopia, usam a mentira e a
tortura, roubam a esperança, matam todas as palavras de alegria, chupam o
sangue da terra de meninos que não chegam a crescer, da terra castanha e verde,
daqueles que inventaram essa palavra pequenina de letras abraçadas, que
significa Paz?
Maria
Guadalupe Magalhães Portelinha
Lisboa, 19 de Março de 2005
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