sexta-feira, 24 de maio de 2019


Sessão sobre o Iraque , na Torre do Tombo

Mãe, conta-me uma história...

- Mãe, onde nasceram as palavras? Não as palavras da boca, mas as palavras no papel, que têm letras muito juntinhas, que vivem abraçadas e nos fazem rir, chorar ou pensar?

- Como dizer-lhe que as palavras escritas terão nascido nesse lugar de guerra, onde a crueldade e a ganância apagaram a palavra amor?
Como dizer-lhe que no País dos rios Tigre e Eufrates, rios de margens férteis de cultura, nascedouro de várias civilizações, as palavras dor e morte incendeiam as palavras luta e coragem, no coração dos homens, das mulheres e das crianças?
Como dizer-lhe que os monstros engoliram o tempo e sorveram a memória, que as pedras da História ficaram perdidas debaixo das botas cardadas, da poeira tóxica, do ferro pesado e incandescente, dos olhares ignorantes, do desprezo e da indiferença?
Como dizer-lhe da terra queimada, do horror, do grito das crianças, do choro das mulheres, da raiva dos homens, da imolação dos mártires, da morte da esperança, da violência sempre a crescer?

-Mãe, porque te calas? Porque tens os olhos tristes?
Está bem, conta-me então, outra história: a história do Índio Jerónimo, daquele que não podia vender a terra ao homem branco, como não podia vender  o sol, a chuva, o vento...

- Como dizer-lhe que os homens da terra do Índio da Utopia, usam a mentira e a tortura, roubam a esperança, matam todas as palavras de alegria, chupam o sangue da terra de meninos que não chegam a crescer, da terra castanha e verde, daqueles que inventaram essa palavra pequenina de letras abraçadas, que significa Paz?


Maria Guadalupe Magalhães Portelinha
 Lisboa, 19 de Março de 2005

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